Set

01

I am a Londoner

por Ricardo Cruz

It is hard to belive isn’t it? O impacto completo do título deste post, penso, não ter ainda assimilado por completo. Mas estas linhas não podem conter a ansiedade que sentia em escrevê-lo. Hoje foi o meu primeiro dia de trabalho, sim do primeiro trabalho, mas é mais do que isso. Tem, sem dúvida, um sabor especial pela altura e espaço em que acontece. Sinto-me grato por poder fazer aquilo que me dá gozo!

O dia começou pelo fresquinho das 7:00, a companheira de aventura fez a amabilidade de me acordar. Nem ponta de ansiedade ou nervosismo enquanto do choveiro caíam as gotas de um banho matinal como qualquer outro. Hoje foi dia de fato, gravata e sapato engraxado a preto. Gosto do conjunto. Subo as escadas para o pequeno-almoço e enquanto a torradeira não cospe as ditas aproveito para preparar a papelada que preciso levar. Em sincronia o cheirinho a torrado indica-me que já saltaram. Café com leite e umas fatias de maçâ são o acompanhamento para as torradinhas embrenhadas em manteiga. No final, quando acabo, sobram 5 fugazes minutos para que atrás de mim se feche a porta da rua. Bonita manhã de Setembro, primeira manhã de Setembro, mas uma brisa relembra-me que não estou em Lisboa. Nada que estrague o momento. Apanho o comboio subterrâneo que me há-de levar ao centro da cidade que fervilha já a esta hora. Passam quatro minuto das nove, e pela primeira vez tenho a impressão que vai ser resvés para as 9:30. Chego já depois da meia hora mas nada que não se tolere, mesmo em Inglaterra, e só perdi os anúncios. Tempo para conhecer o rosto dos colegas que tal como eu chegaram hoje. Gente simpática penso, e de facto. Depois do primeiro contacto e das informações básicas é tempo para conhecer o nosso Line Manager. Tipo porreiro. Depois das apresentações feitas o relógio tem ainda de avançar meia hora para o meio dia quando me sento pela primeira vez na minha secretária e começo o meu primeiro dia de trabalho.

Ago

25

A recompensa

por Ricardo Cruz

Passou algum tempo desde que larguei por aqui os últimos parágrafos. Não tenciono pedir desculpa uma vez que vocês não aceitam mais desculpas para que a escrita, aqui, seja às “mijinhas” como se diz na minha terra. De qualquer forma posso dizer que nas últimas duas semanas toda a minha vida desinteressante mudou. E por tal, não me lembrei eu que tinha um blog para alimentar.

Mas é com imensa satisfação pessoal que escrevo estas linhas. O esforço, o sacrifício, a paciência e a perseverança finalmente deram-me o tão desejado sabor. Nesta altura em que vos escrevo posso dizer-vos que tenho finalmente um contrato de trabalho assinado e que a minha vida profissional começará no próximo dia 1 de Setembro – um bonito dia tendo em conta que é segunda-feira.

Para os interessados; a partir da próxima semana farei parte desta organização que se dedica ao fornecimento de produtos e serviços para o sector financeiro; plataformas de trading para os mais diversos activos, sistemas de análise de portfólio e apoio à decisão, regulamentação de mercados, informação de mercado e conectividade global. A empresa chama-se Fidessa e atinge receitas anuais na ordem da 270 milhões de libras. Desde 1997 é cotada na bolsa de Londres sob o ticker FDSA. Conta actualmente com 1300 colaboradores espalhados pelos diversos escritórios em todo o mundo; New York, Boston, San Francisco, Tokyo, Hong Kong e Paris. Nestes primeiros tempos estarei a trabalhar na sede, em Londres. A organização foi fundada em 1981 e é hoje líder de mercado com uma market share de 85% entre as correctoras tier-one a nível global.

Após um período de treino intensivo em mercados financeiros e nos produtos da empresa assumirei as funções de consultor junior, sendo que passarei a maior parte do tempo a analisar as necessidades de negócio do cliente, a decidir a melhor forma de as satisfazer, a configurar e optimizar soluções e a integrar sistemas.

Esta oportunidade representa tudo aquilo que vim procurar em Londres e não posso deixar de me sentir extremamente feliz com o facto de ter encontrado isso mesmo. Acima de tudo representa um desafio e quem me conhece sabe o gostinho que carinhosamente nutro por desafios. É com desafios que me motivo e que motivação sinto neste momento… Sei que neste ambiente existe espaço para aprender e crescer cada vez mais, não me acomodar a nenhuma situação ou posição e com isso constantemente avançar.

De tudo, uma das coisas das quais mais receio tenho é de um dia me sentir satisfeito, comigo, porque isso representará o fim do encanto original de tudo.

A sorte ajuda os audazes. – Vergílio in Eneida

Ago

07

Job Hunting

por Ricardo Cruz

Londres é possivelmente uma das cidades a nível europeu onde o mercado de trabalho se caracteriza sobretudo pelo grande dinamismo. Trocar de trabalho é frequente. Este dinamismo está por um lado associado a razões comuns com o resto do Reino Unido mas também pelas especificidades da metrópole inglesa; por um lado as próprias leis do trabalho no Reino Unido promovem a flexibilização contratual, por outro, a dimensão de Londres permite uma oferta constante de novas oportunidades que mantêm os profissionais activos. Claro que este dinamismo assume várias velocidades dependentes do sector, contudo é uma característica comum.

Por vários motivos também, Londres é uma das cidades mais atractivas para se trabalhar. Especialmente os jovens profissionais parecem ser atraídos pelo fervilhar constante do centro financeiro Europeu e de todo o lado chegam, com sonhos que rivalizam em tamanho com a própria cidade. Como resultado existe uma enorme concorrência para assegurar um lugar que lhes permita aprender e evoluir nas suas carreiras. Alguns não tencionam ficar muito tempo, apenas o suficiente para garantir um currículo que impressione.

Quando cheguei a Londres, esperava ambas as realidades, mas devo dizer que fui surpreendido, pela velocidade e pelo número, do mercado e dos que como eu correm atrás de um sonho, mas tal como esperava, este ambiente tornou-se em algo realmente motivador. Desde que me lembro que sou assim, gosto destes ambientes, onde existe uma necessidade constante de fazer melhor. Isto mantém-nos activos, impede o parasita tão português do comodismo de se instalar, motiva, faz-nos avançar e ser melhor todos os dias. Aqui, o valor de cada um, depende do que se fez hoje!

Claro que isto faz com que arranjar emprego seja uma tarefa onde é necessário despender muita energia. Esta realidade é nova para mim, pois nunca me senti a pedalar para um emprego em Lisboa. Tem sido uma boa lição de vida. Não querendo ser mal interpretado gostava de salientar um aspecto; não existe aqui nenhum tom de crítica ou juízo de valor em relação ao que se passa em Portugal. As razões para estas diferenças tem a ver com muitos factores a começar pelo próprio mercado, sendo este totalmente distinto. Por isso, a decisão de ficar em Portugal para trabalhar é igualmente válida desde que seja feita em consciência e tenha uma razão para além do “tempo” – leia-se comodismo no sentido mais abrangente do termo.

A minha procura, dura já cerca de dois meses e meio. Devo admitir que tem sido bem mais complicado do que pensei inicialmente. Mas nem por isso me sinto desmoralizado ou arrependido, apesar de por vezes me sentir frustrado e cansado. Mas a questão mais importante, porque é essa que me vai dar um emprego, é saber como me comparo em relação à concorrência. Nas várias entrevistas que já tive – de cabeça umas 7 fora as telefónicas – tive a oportunidade de conhecer o rosto dos que como eu escolheram Londres e aquilo que acho mais importante dizer a este respeito é; não me senti em qualquer momento menos preparado que eles quer em termos técnicos quer pessoais. Isto a meu ver é importante de salientar. A nossa pequeneza – leia-se de Portugal – é determinada na sua maioria pela nossa atitude e falta de auto-estima. As universidades Portuguesas são tão boas quanto as Espanholas ou as Inglesas, e nenhum engenheiro Francês ou Alemão é à partida e por herança nacional, melhor que um engenheiro Português, e assim para os médicos, professores, cientistas, advogados, humanistas, etc. Os mais conservadores em espírito poderão ainda argumentar que a verdade é que lá fora ainda nos vêm com um país atrasado. Mas ó minha gente cabe-nos a nós mudar isso! Dito isto devo então dizer que há um factor muito importante que me limita, a falta de experiência profissional, e quanto a isto não há muito a dizer, pois é algo que só se ultrapassa trabalhando primeiro.

Perguntem a vocês mesmos o que querem da vida, definam objectivos ambiciosos que não caibam em vossa casa e se para eles for necessário vir para “Londres”, venham e enfrentem as dificuldades, acreditem em vocês próprios e acima de tudo sejam determinados e perseverantes…

A persistência é o caminho do êxito.

Charles Chaplin

Jul

26

Everyone reads in the tube

por Ricardo Cruz

Tive já oportunidade de vos constar, como são confortáveis e fofinhos os assentos dos transportes públicos em Londres – e que o não fossem. Pois é, metade desta cidade, eventualmente mais, depende dos transportes públicos para cavalgar os minutos que separam a casa do emprego. No final do dia o tempo perdido em cavalgadas, é significativo. Se por vezes, sentar ou ficar em pé, a pensar na vida é o entretém necessário e suficiente, 90% das vezes é um grande desperdício de tempo. A não ser… a não ser que se faça alguma coisa com ele.

Ler nos transportes públicos, é uma das coisas próprias de um Londrino e serve o propósito de os proteger contra a inutilidade dos minutos. Tudo o que vem à mão marcha, à parte a chocante falta de qualidade dos jornais gratuitos que nos são enfiados na boca à porta das estações de metro de manhã à tarde. Para mim é desconcertante a falta de interesse e o mau gosto geral das notícias publicadas. Mas não posso dizer que tenha sido surpreendente, afinal, a fama da imprensa inglesa precede-a desde à muito.

Ainda assim as pessoas lêm, e querendo ser justos, algum sumo a laranja espremida deita. Não se vê por exemplo este hábito no metro entre o Campo Grande e o Cais do Sodré, entre a Pontinha e o Marquês, entre o Lumiar e o Rato ou entre o Oriente e a Alameda, não importa a cor da linha. Devo no entanto ressalvar que a minha experiência subterrânea em Lisboa é reduzida, correndo o risco de exagerar no discurso. Se assim for, alguém que me espete uma chapada nos comentários se faz favor.

Seja para ler a manhã e entrar informado pelo dia a dentro, seja para “cuscar” debaixo da saia de uma qualquer celebridade – meu Deus como detesto esta palavra – seja para olhar disfarçadamente os seios da rapariga com o decote generoso que ocupa o acento oposto ou simplesmente ler por ler, o facto é que todos lêem e igualmente todos aproveitam.

Jul

15

Nem tudo são rosas

por Ricardo Cruz

Estou à 15 minutos para começar a escrever este post. Por um lado sinto-me estéril, por outro pouco confortável pelo facto de não escrever nada à mais de dez dias. Se os clientes já eram poucos, acho que estou a afastar os mais persistentes. E devido a esta falta de inspiração, não se admirem se este post destoar do que é suposto ser um blog de viagem. Estejam à vontade para abandonar a leitura no momento que acharem não valer a pena.

Vários amigos e conhecidos me disseram mais que uma vez, que admiravam a determinação e a coragem com que decidia abandonar Portugal e um emprego certo, pelo desconhecido num país estrangeiro. Apercebia-me que o meu entusiasmo fascinava, por vezes, alguns dos meus interlocutores que se sentiam impelidos a fazer o mesmo. Contudo, quando se toma uma decisão destas é necessário estar preparado para enfrentar os medos, as angústias e as dificuldades que inevitavelmente surgem.

Sentia, antes de vir, que esta seria uma das decisões mais importantes da minha vida, mas não ousava sequer sonhar a dimensão da mudança. A volta que a vida daria em tão pouco tempo. Descobri coisas sobre mim, e sobre outros que desconhecia.

Agora que o fiz, sinto-me melhor, e encorajo todos os que sentem o mesmo a fazê-lo. Mas estejam preparados e sejam fortes na hora de enfrentar as dificuldades. Mas nunca, nunca, desistam!!!

Não importa que o princípio seja amargo quando o final é doçe.