Jun

17

Ecos do passado

por Ricardo Cruz

Com este artigo corro o risco de me tornar repetitivo nos temas, mas ainda assim não posso deixar de partilhar com vocês a surpresa que foi o jantar do passado sábado. Depois de uma tarde em beleza com piscina, sauna e jacuzzi pela módica quantia de 5£ (contactos :P ), o serão não poderia ter sido mais agradável.

A Cláudia convidou uma colega de trabalho para jantar cá em casa; uma rapariga Vietnamita que vive em Londres à cerca de três anos, tempo durante o qual estudou para obter o seu bacharelato em Marketing. Vem novamente a propósito falar da quantidade de nacionalidades que se podem encontrar nas ruas de Londres; todas, ou quase todas, as colegas de trabalho da Cláudia têm outra origem que não as ilhas britânicas. Prato do dia; esparguete com carne de vaca picada em cubos, grelhada com um pouco de azeite e cebola. Camarões para a entrada e um vinho Californiano – Cabernet Sauvignon – para regar o repasto.

Uma vez mais o contacto com alguém cujo “background” cultural é totalmente distinto do meu, manteve-me cativado ao longo de toda a conversa. O que poderia à partida esta rapariga saber sobre Portugal? Tanto quanto eu sei sobre o Vietname possivelmente. Fui por isso surpreendido quando ela se referiu a nós, nação lusa, como os responsáveis por uma singularidade histórica com profundo impacto na cultura Vietnamita. Segundo a minha interlocutora, foi graças a um português, um padre, possivelmente jesuíta, que os caracteres ocidentais foram introduzidos no Vietname e mais tarde adoptados para a escrita da língua Vietnamita. Esta ideia, testemunho do nosso imenso legado histórico, muitas vezes desconhecido, não pôde deixar de me comover enquanto herdeiro desses exploradores.

Mas esta conversa apenas me aguçou a curiosidade, motivação suficiente para fazer uma pequena investigação sobre este assunto, inicialmente com o objectivo de resgatar o nome desse padre jesuíta do esquecimento.

Baía de HA Long, classificada como património mundial pela UNESCO.Os Portugueses foram os primeiros europeus a arribar à costa Vietnamita durante o início do século XVI, corria o ano de 1516. Aos portugueses chamaram os nativos de putao-nhá. Poucos anos depois, em 1525, chegam os primeiros missionários portugueses, que por sinal eram dominicanos e não jesuítas – fica emendada a primeira incorrecção. Seguindo a tendência expansiva da economia Portuguesa da altura, uma década depois, o capitão António Faria funda o primeiro entreposto comercial. Mas foram estes primeiros missionários dominicanos que começaram a utilizar os caracteres Latinos na tradução de textos com fins educativos e de evangelização. É depois com base nos dicionários iniciais de Português-Vietnamita, compilados por Gaspar d’Amaral e Duarte da Costa, que o padre jesuíta francês Alexandre de Rhodes, compila em 1651 um dicionário de Vietnamita-Português-Latim, usando já uma grafia ligeiramente modificada. Contudo e apesar dos esforços dos primeiros evangelizadores, o alfabeto vietnamita chữ nôm, usado até então continuou a gozar do seu estatuto de alfabeto oficial. O alfabeto chữ nôm, é uma adaptação dos caracteres chineses à realidade cultural vietnamita, sendo um misto dos primeiros com outros próprios do Vietnamita mas compostos de acordo com as mesmas regras. Apenas com o advento do século 20, sob poder colonial Francês, o alfabeto desenvolvido por Alexandre de Rhodes se torna oficial. Paradoxalmente, são os nacionalistas que mais uso fazem do novo sistema como arma contra o poder colonial, criando escolas e publicando a propaganda anti-francesa usando os novos caracteres. Hoje, desde a segunda metade do século XX o alfabeto quốc ngữ, como é conhecido, é usado universalmente para escrever Vietnamita.

Pôr do Sol na aldeia piscatória de Mui Ne, no sudeste do país.O importante legado da introdução dos caracteres Latinos no Vietname pelos europeus foi a literacia das massas. Quando comparado com o sistema chinês, o alfabeto latino baseado em fonemas é extraordinariamente mais simples, levando muito menos tempo para aprender e dominar. Até ao século XX, a esmagadora maioria dos Vietnamitas era incapaz de ler e escrevera. Hoje a maioria da população é alfabetizada.

Enquanto algumas igrejas são a prova tangível deste passado de intercâmbio cultural, os putao-nhá continuam presentes na memória colectiva e tradição oral desta gente que habita na península da Indochina.

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